Yes, nós temos (mesmo) bananas

[por Ricardo Bonalume Neto]
Meus lugares preferidos em casa são onde consigo ler. Há uma poltrona reclinável na sala, da qual volta e meia tenho que expulsar um cachorro ou cachorra antes de sentar. Há um sofá no segundo andar, onde tenho que disputar espaço com gatas, notadamente a patrona desta coluna, a preta ou negra Minolda. E há uma rede no quintal, longe do Sol, mas de onde posso ouvir a água de uma fonte caindo suavemente (não, não se trata de superstição feng shui) e vigiar as gatas interessadas nos peixes embaixo.

Esse "nariz de cera", como os jornalistas chamam uma longa introdução antes do ponto principal, é para lembrar mais uma vez como estou alegre por não morar nesses prédios com nomes metidos a besta em inglês ou francês.

Como hoje é domingo, dê uma olhada no caderno Imóveis. Veja se algum prédio anunciado tem nome em português. Se tiver, é milagre, e eu deveria talvez rever meu status de cético. Morei em um prédio chamado Barão de Antonina. Nome metido, mas pelo menos na língua de Camões, Saramago, Lobo Antunes e Ratinho. Meu último prédio chamava-se Denity, e até hoje não sei o que isso significa. Será que queriam dizer Deity, "divindade" em inglês? Mistério, mistério.

Essas dúvidas não existem entre os chamados "emergentes da Barra", a turma de novos-ricos cariocas que vive perto de um centro de compras ("shopping center") que tem até réplica da nova-iorquina estátua da Liberdade. Tudo ali tem nome em inglês. Ou mesmo aqui em São Paulo: preste atenção aos nomes das lojas nos tais centros de compras (que nos EUA são conhecidos mais como "shopping malls", e não "centers").

É por isso que eu fiquei espantado com as reações de brasileiros aos atentados nos EUA. Os gringos foram vítimas, mas viraram vilões. Pergunto: o que o ditador iraquiano Saddam Hussein, palestinos nas ruas do Líbano e professores universitários brasileiros têm em comum? Pouca coisa, pode-se dizer. Mas uma delas é a mesma interpretação básica para os atentados terroristas em Washington e Nova York: os EUA "mereceram" a desgraça que matou milhares de seus cidadãos.

Saddam aplaudiu os atentados e alguns palestinos dançaram de alegria nas ruas. Já acadêmicos em várias partes do mundo, incluindo brasileiros, lamentam as mortes, mas fazem questão de apontar que os "motivos" seriam os desatinos da política externa americana, como se houvesse uma relação de causa e efeito entre o que afirma e faz o Departamento de Estado e jogar um avião de passageiros contra um arranha-céu.

Esse antiamericanismo, sempre latente nos latino-americanos, com sua notória relação de amor/ódio com o vizinho ao norte, é o reflexo previsível da preponderância econômica, cultural e militar americana no mundo pós-Guerra Fria.

O século 19 teve a "Pax Britannica". O século 20, mais corretamente a sua segunda metade, foi o auge da "Pax Americana". Essa hegemonia militar das potências anglo-saxônicas, hoje tão criticada, impediu que houvesse uma guerra entre os países militarmente mais poderosos, a princípio apenas europeus, depois incluindo China e Japão em um complexo sistema de alianças.

E hoje? Alguém duvida que, se não fosse a sétima frota americana, os chineses teriam invadido Taiwan? E qual mulher gostaria de viver no Afeganistão não mostrando nem os olhos para o mundo? Quanto mais rebolar feito bailarina no Tchan...

O problema básico é ver o mundo em preto e branco. O cinza, uma cor considerada tão sem graça, pouco "fashion" (desculpe pela palavra da moda local, o correto seria dizer "fashionable"), é o melhor filtro para enxergar a realidade.

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