Ser pacifista é ser pró-Taleban

[por Ricardo Bonalume Neto]
Uma faca de cozinha serve para passar patê ou fatiar cenoura, mas pode ser a arma de um crime. Meu inocente canivete com seu vital saca-rolha não vai mais poder viajar comigo de avião por ter esse mesmo potencial de arma terrorista. Essa dualidade costuma ser usada por cientistas quando falam daquilo que fazem: a ciência é neutra, pode ser usada para o bem ou para o mal. A mesma radiatividade, cuja descoberta trouxe a bomba atômica, também permite curar certos tumores.

O raciocínio é tentador e reconfortante, mas a própria idéia de neutralidade tem seus problemas. A faca de cozinha pode ser "neutra", mas ela é um objeto. Pode-se dizer o mesmo, grosso modo, do conhecimento científico -ele constitui um conjunto de "objetos" à disposição de quem queira usá-lo.

Quem usa a faca é um "sujeito" que nunca é neutro, pois é ele quem decide se vai usá-la para fatiar a berinjela ou o fígado do vizinho. Qualquer um que tenha mãos e movimento nos braços pode usar uma faca de cozinha. Mas quem usa a "faca" chamada conhecimento científico não são os políticos ou os militares ou a população em geral. São sujeitos chamados cientistas -que também nunca são neutros, são pessoas como as outras, mas com responsabilidades bem específicas.

Fala-se em terrorismo através de armas químicas ou biológicas. Mas não seriam terroristas comuns os capazes de empregar essa ameaça. Os criminosos precisariam da ajuda de cientistas ou técnicos para usar essas armas.

Minha visão algo radical de que não existe neutralidade em nada, de que sempre temos que tomar posições, pode ser entendida com o tema do pacifismo. O escritor inglês George Orwell -um socialista democrático e anticomunista- escreveu textos brilhantes sobre o tema. Fiquei contente de ver um deles reproduzido em um dos melhores artigos publicados sobre o antiamericanismo que varreu o mundo depois dos atentados de Nova York e Washington, obra do também inglês Bryan Appleyard, colaborador do jornal "The Sunday Times" (o texto foi reproduzido pelo jornal "O Estado de S.Paulo" no último dia 30).

Orwell escreveu sobre o pacifismo inglês durante a Segunda Guerra Mundial, aquele conflito em que do outro lado estavam Adolf Hitler e seus nazistas, que dispensam apresentação. Disse Orwell em 1941: "Na medida em que dificulta o esforço de guerra britânico, o pacifismo britânico está do lado dos nazistas, e o pacifismo alemão, se ele existe, está do lado da Grã-Bretanha e da União Soviética. Uma vez que os pacifistas têm mais liberdade de ação em países onde sobrevivem traços de democracia, o pacifismo pode agir mais efetivamente contra a democracia do que a favor dela. Objetivamente, o pacifista é pró-nazista." Pode-se dizer que ser "pacifista" hoje é ser objetivamente pró-Taleban. Terroristas são criminosos que precisam ser presos.

Acho particularmente interessante que Appleyard também tenha textos polêmicos sobre outro tema do momento: a genética. Ele é autor do livro "Brave New World: Genetics and the Human Experience" ("Admirável Mundo Novo: Genética e a Experiência Humana") em que tenta contestar o otimismo generalizado entre cientistas sobre os avanços da pesquisa na área.

Ele faz perguntas difíceis de serem respondidas. Por exemplo, se for descoberto que o crime pode ser tratado geneticamente, será o caso de "tratar" os criminosos? Appleyard não vê meio termo entre a possibilidade de alterar a população através da genética, e não se meter com ela.

Vejam um trecho de um outro artigo de Appleyard: "O uso do DDT como inseticida foi interrompido depois da descoberta do dano ambiental que causava. Mas o DDT erradicou a malária com sucesso em muitas regiões.

Banido, isso significou que muitos milhões desde então continuaram a sofrer e morrer de uma doença que desde então tem desafiado todas outras tentativas de controle. Ciência pode ser fatal, mas o ceticismo anticientífico também é".

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